Abaixo

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Era tarde, provavelmente de madrugada. Eu não conseguia dormir, nem ao menos sentia sono. Pensei em ler ou assistir alguma coisa, mas minha cabeça não estava para isso.
Tentei me virar de um lado para o outro na cama, mas não havia sinal algum de sono em mim.
Levantei da cama e fui até a cozinha beber água. Tomei um e levei outro para o quarto. Coloquei o copo sobre meu criado-mudo e deitei na cama.
Fiquei olhando para um teto por um tempo, pensando em algumas coisas, quando ouço barulhos na rua. Eram vozes em um tom alterado para uma conversa normal. Sentei-me rapidamente na cama para prestar atenção. Aos poucos as vozes se distanciaram, voltei a deitar na cama.

Eu estava numa espécie de campo, podia sentir o gramado sob meus pés. Por que eu estava descalço? Estava escuro demais para enxergar algo além de um palmo do meu nariz. Não parecia haver ninguém por ali, exceto por grilos.
Comecei a dar pequeno passos, lentamente, tentando desvendar o ambiente. Nada além de grama.
Olhei para cima, em busca de alguma luz, nem mesmo a Lua estava no céu. Estaria eu trancafiada em algum lugar? Levantei as mãos na altura do peito, em procura de alguma parede, árvore, etc.
Dei um total de quinze passos para frente e nada. Sentei-me no chão. Percorri minhas mãos pelo chão em todas as direções possíveis. à minha esquerda havia… Terra? Bem, de certo modo faz sentido, grama e terra. Mas esta terra estava úmida e fofa, como se acabassem de retirá-la. Resolvi engatinhar na direção da terra. Conforme eu avançava, a quantidade de terra aumentava, e mais frio ficava.  “Aonde raios eu estava?”, era a única coisa em que conseguia pensar.
Finalmente esbarrei em algo. Gelado, sólido. Parecia uma pedra. Não havia musgo nela, sinal que estava ali há pouco tempo. Havia algo nela, como se houvesse uma escrita.
Assim que levantei-me para tentar sentir melhor a pedra, mãos me empurraram com força para trás. Senti meus pés saírem do chão e minha cabeça bater forte em algo.

  • Finalmente acordou Bela Adormecida!
  • Onde estou?
  • Como assim? Dormiu e perdeu a memória Ann?
  • Havia grama, pedras, terra.
  • O quê? Ficou maluca? Deve ter sido um pesadelo. Anda, estamos atrasados para a aula.
  • Ah ok. Deve ter sido mesmo.
“Um dos sonhos mais reais que já tive.’’ pensei. Tomei um banho rápido, peguei meu chá. Joseph já estava no carro me esperando. Passei a aula toda tentando entender o que eu havia sonhado. Eu estava com uma aparência horrível, como se houvesse sido atropelada, segundo meus amigos. Depois da aula, todos foram para o bar comemorar o aniversário de James, mas eu não estava no clima. Peguei um táxi até em casa.
Liguei a banheira, enquanto ajeitava minha cama. Arabela, minha gata, estava dormindo calmamente sobre sua caminha. Tudo parecia tranquilo, então decidi ir logo para o banho.
A água estava na temperatura ideal. Liguei meu despertador, em caso de adormecer.

Minha cabeça doía. Meu corpo imóvel. Minha respiração estava tão fraca, que eu mal conseguia falar. Barulhos. Vozes. Fechei os olhos rapidamente. Seja quem fosse, ou o quê, eu não queria ver. As vozes se aproximaram e permaneceram ao meu lado. Eu podia sentir o calor da presença deles. Haviam dois ou três, não tenho certeza.
Abri os olhos, e como me arrependo disto! As criaturas eram altas, extremamente altas, com aparência estranha, como se sua pele toda estivesse queimada. Havia um cheiro de podre neles, havia escuridão em seus olhos e maldade em seus lábios.
Eles não falavam. Apenas me olhavam. Seu olhar era penetrante e assustador, mas eu não conseguia deixar de olhar. Suas mãos eram grandes, com dedos finos e unhas que me lembravam garras. Agora eu tinha certeza de que eram três.
Um deles levantou a mão em minha direção e passou sua garra em minha testa. Aquilo queimou como ácido em mim. Em vão tentei gritar, não havia forças.
Fechei os olhos, segurei minha respiração, forcei-me a acordar, eu precisava fugir daqui!

  • Ann! Acorda!
Eu dei um único grito. Era Joseph. Ele parecia assustado, congelado de medo.
  • Não! O que está acontecendo?
  • Não te vi no bar e resolvi ver se estava bem. Sua porta estava aberta, chamei e você não respondeu. Quando entrei no seu quarto, ouvi você se debater na banheira, você estava se afogando!
Abracei ele como se não o visse há anos. Fui até a cozinha buscar um copo de água. Joseph dormira na cama de minha irmã, ao meu lado. Fui até o banheiro e olhei para a banheira. Tomei banho por anos nela e nunca havia ocorrido nada como hoje. Olhei para o espelho, eu definitivamente estava horrível, com olheiras e tudo mais. Olhei para Joseph, ele parecia tranquilo.
Deitei em minha cama, olhei para o relógio, quatro da manhã, como no sonho. Fechei os olhos e tentei dormir. Ouvi vozes na rua, como no dia anterior. Ignorei-as. Virei de um lado para o outro e finalmente achei a posição certa e adormeci.
Acordei com a garganta seca. Peguei o copo, o esvaziei rapidamente. Assim que deitei na cama, senti meus braços queimando.
Olhei para os lado, as garras, elas estavam ali. Tentei gritar, mas nem um som saía. Fechei os olhos na esperança de ser um pesadelo, não era.
Soltei um de meus braço e agarrei a criatura. Assim que a segurei, vi seu rosto de perto. Ela abriu sua boca e besouros saíram de dentro dela.  Ela me olhos fundo nos olhos. Passou suas garras em meus rosto, segurou-o firme e disse:
  • Você pertence ao submundo Annabel, você pertence a mim!
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