Singulares

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Aos poucos o distanciamento chegou. Aumentou ao ponto de termos um relacionamento a distancia dentro da mesma casa. Eu estava jogada no canto do sofá sem saber ao certo o que estava acontecendo. Eu não conseguia acreditar no que se transformamos. Um plural que se tornou dois singulares. A casa parecia gigante, o sofá uma ponte prestes a desabar, sem segurança do outro lado.

Eu aguentei essa situação por meses, anos. Eu me desprendi de mim, vivi por você. Deixei os sonhos por você. Eu me tornei o robô, a boneca perfeita pra você. Mudei meu jeito de falar, meu sotaque. Transformei-me na tampa perfeita, mas no fundo eu era só uma peneira. A peneira que tampava a sua falta dela. Todos os lugares que frequentamos, todos os bares, restaurantes eram os lugares onde você esteve com ela. Você nunca esteve comigo e sim, com o fantasma dela.
Eu não sei como, mas eu suportei essa situação de uma maneira horrível, me degradei. Sentada no sofá, eu comecei a me questionar o porquê tudo estava assim. Comecei a me lembrar de tudo o que passamos e o quanto eu me sentia presa. Sem sair com meus amigos, sem mal ver minha família. Eu estava presa no seu mundo. E não era a força. Permiti-me estar ali e ali fiquei. Percebi o quão infeliz e morta eu me tornei, mas tudo aquilo precisava mudar. Por que eu tinha que ser a sua peneira, a sua tampa, ser a metade da sua laranja? Por que eu tinha que ser a metade e não inteira? Aquilo estava errado, eu estava cansada disso. Era hora de mudar.

O primeiro e ultimo aviso, eu estava saindo da sua vida. Doeu caminhar para longe, mas eu caminhava para longe de você e para mais perto de mim. Tirei as fotos da parede, pintei a casa de outra cor, algo animado, vivo. Deixei tudo com a ‘minha cara’. Aos poucos todos os buracos da peneira iam sendo tampados. Aos poucos a luz do sol já não me incomodava e a noite me trazia paz e não tormento. A reaproximação da minha família e amigos me sustentou e me sustenta até hoje. Meu gato já não passeia triste pela casa sentindo falta de alguém, ao contrário, ele se acomoda em meu peito e dorme tranquilo. O sofá agora é perfeito, até durmo nele e a casa já não aparenta ser tão grande.

No fim de tudo eu me recuperei muito bem. Entendi que não queria nem quero ou preciso ser a metade de alguém. Eu não quero mais alguém que junto a mim se torne singular. Entendi que preciso de alguém singular, que tenha seu mundo singular, que quando somado ao meu, se tornaremos plural.
 
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