Reticências

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É sempre o mesmo, não adianta. Cansei simplesmente de tentar. Chega. Uma hora tudo tem que acabar, mesmo a esperança que é a última a morrer.
Acordar. Tomar banho. Trocar de roupa. Almoçar. Pegar o ônibus. Trabalhar. Intervalo. Mais trabalho. Pegar novamente o ônibus. Observar as pessoas a minha volta. Chegar em casa. Engolir algo. Deitar. Tentar dormir. Essa é a rotina. É disso que eu deveria acreditar que a vida é feita? Não estou sendo pessimista, nem a vilã da história, mas aonde está a alegria? Não falo de sorrisos. Posso sorrir todos os dias, enquanto meu coração e alma estão em pedaços. Em mil pedaços, como cristais quebrados ao chão. Não sentir o coração bater, sem sentimentos, sem poder senti-los. Isso é horrível, é desumano.
Me sinto o robô da sociedade moderna. Moldada para trabalhar. Feita para a faculdade, preparada para o sucesso, mas sem um coração pulsando e sem uma alma cantando.
No que me transformei? Numa espécie de monstro? Alguém cheio de manias e temores, sem saber o que é sentir a chuva molhando o corpo, ou a grama verde e macia sob meus pés. Alguém que almeja prédios altos, infinitos, sem perceber a beleza da joaninha em seu dedo. Alguém perdida sobre o que ser ou quem é agora, sobre quem me tornei ou deixei de ser; alguém em dúvida. Uma bolha de dúvidas pulsante.
Onde deveria habitar minha alma, habita o medo, a ansiedade, a agonia, a maldita dúvida.
Lembra-se do limbo que mencionei? Pois bem, estou nele. Jogada lá no fundo, sem coragem para levantar. Não há mãos a minha volta. Apenas a escuridão e eu. Inútil. É como me sinto. Não é nada material, nem espiritual. É sobre sentimentos, ou melhor, a falta deles. A saudade sobre se sentir boba ao apaixonar-se, a saudade de sentir o estômago cheio de borboletas. A vontade de ter chamas em meus olhos. A vontade de amar novamente. Acreditar no amor. Porque todas as vezes em que eu me abri para o amor, tive meu coração dilacerado. Eu poderia dizer "hey, não me dê ouvidos, sou apenas uma louca atrás de uma utopia", mas você acreditaria? Não, não mesmo. Continuaria a ler e ler e dizer que se identifica com o texto. Pois é. Temos em comum a empatia, o sentimento de se colocar no lugar dos outros.
Mas o que descrevo aqui (como um desabafo tão depressivo), é uma verdade geral.
Somos adultos, correndo atrás de uma utopia. Da felicidade eterna. Crianças crescidas atrás da Terra do Nunca. Mas acredite, isso não muda e nem mudará.
É sempre o mesmo, não adiantará. Cansamos simplesmente de tentar. Chega. Damos um basta. Uma hora tudo acabará, mesmo a esperança que é a última a morrer.
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